Policia

06/03/2018 12:31 Eliza Gund/Florestanet

EXCLUSIVO: Homem relata medo e vergonha após esquema para incendiar Prefeitura de Bandeirantes

A Operação Loki desenvolvida pela Delegacia Especializada em Crimes Fazendários e Contra a Administração Pública (Defaz) na segunda quinzena de setembro de 2017 no município de Nova Bandeirantes desencadeou uma série de fatores e tensão no município. No dia 02 de outubro um incêndio que consumiu todo o paço municipal e que passou a ser investigado, com um dos principais envolvidos morto e outro preso. O caso ganhou repercussão no estado, e nesta segunda-feira (05) a denúncia, de forma exclusiva à radio Bambina FM 96,9, de tortura realizada por um delegado da Capital, contra um dos envolvidos no crime, que fez denúncias contra várias autoridades do município de Nova Bandeirantes, e acusações junto ao Ministério Público.

Operação Loki

Em Nova Bandeirantes estavam previstos ser cumpridos 10 ordens judiciais. A Operação buscava cumprir seis conduções coercitivas em desfavor de membros da Prefeitura de Nova Bandeirantes e prestadores de serviços para depoimentos nas investigações. Buscava apreender documentos, computadores e celulares que possam comprovar indícios de crimes contra a administração pública, peculato, associação criminosa e crime de responsabilidade de prefeito da atual gestão da Prefeitura de Nova Bandeirantes.

 A ação policial apura desvio de recursos públicos após emissão em duplicidade de documentos e pagamentos ilegais feitos com prioridade por serviços não prestados a Prefeitura de Nova Bandeirantes. As investigações também apuram fraudes na entrega de produtos a Prefeitura de Nova Bandeirantes, decorrentes de aquisição por processos licitatórios e por compras diretas durante a atual gestão. O nome da operação faz referência a Loki, considerado um deus da trapaça e da travessura na mitologia nórdica.

A negociação

Juliano Thibes Guedes de 27 anos, afirma ter sido contratado pelo prefeito para atear fogo na prefeitura, mas nega ter cometido o crime.

Conforme entrevista exclusiva à Bambina FM, Guedes aceitou o trabalho mediante a negociação de R$ 50 mil reais, que seriam pagos em duas etapas, uma pequena entrada e o restante quando o “serviço” fosse feito. A negociação aconteceu após um encontro casual entre Guedes e o prefeito, Valdir Rio Branco, o secretário de Obras, José Gabriel Bueno Schmitt e o filho do prefeito, advogado Thiago Pereira.

“Um dia eu fui ver a torre que a OI montou, e encontrei a caminhonete do prefeito, que parou na parada de ônibus, parei pra conversar com eles. O prefeito estava muito nervoso e falou pra mim que eu fosse no escritório do doutor Thiago. Cheguei no escritório o doutor Thiago me disse – Juliano, tenho um negócio até difícil de pedir pra você, é um serviço, você procura o Cica, que ele sabe o que é pra você fazer. – procurei o Cica”.

Conforme continuidade dos relatos de Guedes, o secretário de Obras informou que haveria um “negócio grande” na cidade, se referindo a Operação Loki, e que documentos precisavam ser retirados da prefeitura. Alguns dias depois o pedido de atear fogo, que foi feito mediante a proposta de pagamento e ainda assessoria jurídica por parte do advogado Thiago Pereira. “Doutor Thiago falou que seria meu advogado, se eu precisasse de um advogado mais forte, teria o advogado do pai dele. Então tudo bem, nem pensei, peguei o envelope. Depois procurei o Juliano Rocha, que disse – não, eu faço! – aí ele pegou mais outro parceiro, fizeram o serviço em três, eu não fui fazer, terceirizei para eles”, relatou Guedes.

O recebimento

Após o acerto de que receberia os R$ 50 mil, no final de semana o secretário de Obras entregou à Guedes um envelope contendo R$ 5 mil, o restante do pagamento seria feito após o serviço concluído. No domingo, 02 de outubro de 2017 a prefeitura foi invadida pelos três homens que atearam fogo, na segunda Guedes estava em Alta Floresta e foi informando que estava pronto, “pensei, está pronto só falta receber, voltei para Bandeirantes e procurei o Doutor Thiago, doutor Thiago mandou procurar o Cica. Procurei o Cica, ele mandou procurar o doutor Thiago, ficou jogando de lá pra cá, e falei pro Juliano Rocha e pros parceiros dele que cobrassem, eles cobraram, mas também não receberam”.

Após as cobranças feitas, uma nova negociação, valores de R$ 15 mil foram oferecidos para que uma lista com o nome de quatro mulheres fosse divulgada como sendo autoras do crime de incêndio. “Ficou do Rocha ir se apresentar na delegacia junto com o doutor Thiago, que é o advogado que iria nos defender de tudo, ele foi na delegacia de Bandeirantes e mandaram se apresentar pro delegado em Alta Floresta. Dois seguranças do prefeito acompanharam o Rocha para dar o depoimento em Alta Floresta e lá me pagaram mais R$ 4,5 mil”, relatou Guedes.

Passados alguns dias Guedes foi procurado por Rocha, cobrando, pois havia recebido apenas R$ 450,00 pelo serviço prestado. “Eu fui cobrar o Cica e ele me disse – não, não vou tratar bandido – e a doutora [advogada do prefeito] falou que não era pra pagar porque senão não dá indícios na investigação pra culpar as mulheres, e era isso que eles queriam”. Após as recusas, Guedes procurou a ajuda de um vereador, que o orientou a procurar a delegacia fazendária para relatar o ocorrido, visto que a Operação Loki havia acontecido. Guedes contou a sua versão de ter sido pago para entregar a lista de mulheres acusadas do serviço, mas omitiu o contratante, isso no dia 28 de fevereiro de 2018.

A tortura

“Com tanto delegado que tem aqui no município de Alta Floresta, teve que vir um de Cuiabá, e o que veio de Cuiabá em vez de fazer o trabalho dele, investigar, não, veio pra me bater?! Tá errado, eu não estou entendendo isso”, apontou Guedes relatando as agressões sofridas.

“Apareceu o novo delegado lá e queria saber a verdade, eu contei toda a verdade pra ele no dia 28, mas antes de eu contar o relato. Eu vi que era só eu sozinho e vários policiais, eles começaram a me bater e eu falei – não, não, eu vou contar a verdade – contei tudo como aconteceu”, relata Guedes, frisando que sofreu agressões com murros no estômago, murros nas costas e chutes, “Eles falaram pra mim ligar pro meu advogado, meu advogado foi lá e eles param de me bater, aí eu dei o depoimento e fui pra casa”.

No dia seguinte, 01 de março, Guedes relata que procurou o hospital por estar sentindo muitas dores devido as agressões sofridas. “Como Bandeirantes é pequena, ia passando a viatura da Civil, o policial conhecido da cidade viu a minha moto, pararam, eu saí lá fora e eles falaram – me acompanha na delegacia?! – isso era 09h da manhã, eu fui e aí eles falaram que iam buscar o Rocha em Apiacás, e foram, mas me agrediram muito”.

A tortura conforme Guedes durou sete horas consecutivas, promovidas por policiais e um delegado vindo da Capital de Estado. “Muro na barriga, joelhada na barriga, murro nas costas, enforcamento, toalha molhada na cabeça, teve uma hora que estava perdendo o fôlego com esse toalha, eu falava – não faz isso não, eu falei a verdade­”, relatou Guedes frisando que “eles queriam que eu mentisse, queriam ouvir um depoimento falso que o Rocha deu”.

Após todo o processo de tortura, Guedes afirma que para sair da delegacia assinou o depoimento, “o delegado disse que pra sair era só assinar, eu estava com tanta dor que nem li”. Guedes fez o exame de corpo delito, contabilizando nove lesões.

Medo

“Eu estou aqui porque estou com medo de morrer, esse negócio se tornou tão complicado, porque a verdade não vale mais nada. O delegado quis tanto uma mentira, que eu não sei mais o que vai acontecer, não espero mais nada, eu falei a verdade”, desabafou Guedes.

Guedes ainda relata que a primeira tentativa contra ele foi a de privar a sua liberdade, “a turma do prefeito fez de tudo pra manter eu preso”, fator que não ocorreu, agora teme voltar para casa em Nova Bandeirantes. “Eu espero que a Justiça termine logo isso aí, porque eu já falei tudo, contei várias vezes a verdade, só faltei com ela uma vez lá na Defaz, porque eu não podia contar tudo. São duas partes, e em todas as duas a turma da prefeitura está”.

“Eu me arrependo e muito, quando eu vi que não recebi, e que os rapazes não receberam nada, eu já vi que isso ia ser tormento”, relatou Guedes frisando que gravou vários vídeos com depoimentos falsos comprometendo outras pessoas, “Isso fazia parte do acordo de R$ 15 mil, não vou mentir, mas estou arrependido, eles nunca falavam que era pra prejudicar fulano ou beltrano, falavam que era para a nossa segurança”.

Denúncia

No dia 02 de março do ano corrente, Juliano Thibes Guedes procurou o Ministério Público, na 2ª Promotoria de Justiça Criminal de Alta Floresta, para denunciar a tortura.

Entrevista

Guedes durante a entrevista cedida com exclusividade a Radio Bambina, afirmou que a ordem partiu do secretário de Obras, José Gabriel Bueno Schmitt o ‘Cica’, do empresário conhecido como Vagner, proprietário da Loja Imperial, com promessas pagamento de R$ 50 mil e de suporte jurídico por parte de Thiago Pereira, advogado e filho do prefeito.

Uma segunda negociação, no valor de R$ 15 mil, seria para incriminar três mulheres do município. Ainda conforme Guedes, o montante de R$ 9.500,00 foi recebido por ele, Juliano Rocha, contratado por ele para realizar o “serviço” recebeu apenas R$ 450,00. E que agora se sente ameaçado e com medo.

Ainda após quatro dias, Guedes carregava algumas marcas da tortura, que fez questão que fossem registradas.


O site Florestanet, foi o primeiro site de notícias de Alta Floresta, teve a sua operação iniciada em 1999, sendo um dos pioneiros no jornalismo on-line.

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